Tim Robbins entrevista Eddie Vedder

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yield
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Tim Robbins entrevista Eddie Vedder

Post by yield » Thu Mar 22, 2007 10:34 am

Ótima e grande entrevista, já foi postada mas não era traduzida:


Revista Hobo
Quinta Feira, 25 de Janeiro de 2007



Tim Robbins – Oi, aqui quem fala é Tim Robbins.

Eddie Vedder - Hey, bom dia.

- Nós estamos gravando agora?

- Eu acho que estamos sim, o que não é nada incomum para nosssa conversa (risos).

- Bem, vejamos, vamos começar pelo começo.

- Cinco milhões de anos atrás?

- Cinco bilhões de anos atrás. Quando a vida como nós conhecemos surgiu, que tipo de música você ouvia?

- Música subaqüática (risos). Na maioria das vezes um monte de barulhos. Sim, os exemplos rítmicos do planeta, os sons de bolhas estourando na superfície do oceano...

- Você sabe a espécie de vida que você manifestava naquela época?

- Eu acredito que um “trilobita” [um escorpião primitivo]. Eu acho que talvez muitos de nós fomos... Eu não sei, às vezes eu tenho sonhos assim, onde eu fico querendo ser uma concha (risos).

- Eu tenho sonhos assim também. Seria muito cômodo ter uma cobertura protetora nos dias de hoje. Então, você se envolveu com algo de milhões de anos na história da Terra, e quando estivemos por volta de, vejamos, 1975/1976, que tipo de música você ouvia?

- Bem, 1978 eu posso me lembrar porque foi o ano do “Last Waltz by the Band”. Voltando mais um pouco, quando eu morava em uma república, “Chicago Lake Bluff Home for Boy”, ou algo assim. Eles tinham um gravador cassete no porão. Muitas das crianças eram mais velhas, e de diferentes origens culturais, havia negros, irlandeses... enfim. Havia muitos que gostavam do “Motown”, do “Sly”, da “Family Stone” à “James Brown”. Eu me interessava pelo “Jackson Five”, pois eu podia contar a idade deles – não era pelos cabelos deles - eu tinha inveja daqueles cabelos na época. Eu me lembro que meu tio me levou para ver “The Last Waltz”, e havia muitos com aqueles cabelos naquelas duas horas de filme, pessoas como “Bob Dylan”, “Neil Young”, “Ron Wood”, “Joni Mitchel”, “Van Morrison” e “Muddy Wattrer”, isso plantou mutas sementes. Havia todo um rodeio de emoções no “blues”. Você podia sentir a emoção porque era seu último concerto e, sabe, Scorsese expressou isso muito bem. Eu ví isso numa espécie de teatro vazio de Chicago“. Eu tinha 12 ou 13 anos.

- Onde você estava tocando naquela época?

- Eu não estava, mas eu queria tocar. Eu estou tentando me lembrar pois eu ganhei o meu primeiro violão no Natal, quando eu tinha entre 12 e 13 anos. Meu aniversário é perto do Natal, eu enchí o saco dos meus parentes para darem juntos de presente uma guitarra. Eles pensaram que deveriam me dar um violão para ver se eu gostava. Acho que foi na época que eu assistí o filme.

- Que tipo de violão era?

- Era uma cópia de um “Memphis Les Paul”. Ele era muito pesado para um garoto do meu porte. Isso durou provavelmente um ano, até que num súbito dia houve uma melhora e eu o ví vomo um amigo. Ele me encarou sabe?

- Ok, vamos mais adiante. Quando você se mudou para “San Diego”?

- Eu voltei ainda criança. Eu crecí em “Chicago”, me mudei para “San Diego” quando tinha mais ou menos 10 anos, e então morei lá por um tempo, depois me mudei de volta para “Chicago” quando tinha entre 16 e 17 anos. E depois me mudei novamente para San Diego em meados dos anos 80.

- Oh, em meados dos anos 80?

- Isso, eu era um garoto. Não pensava no colégio.

- Foi em meados dos anos 80 que o “punk rock” começou a fazer sucesso no interior. Você estava ciente desta música quando ela começou?

- Eu acho que eu tinha uma espécie de gosto “mainstream” de subúrbio. Só quando eu ví “Rock´n´ Roll High School” que eu tomei gosto, pois havia um lugar para pessoas desajeitadas irem. Olhando para trás, isso me levou num certo momento a ouvir “Sex Pistols”. Eu me lembro de estar ouvindo “Elvis Costello” no “Saturday Night Live” e ele me pareceu intenso, com uma espécie de íra. Você conhece o olhar dele, ele olha como um cara que poderia chutar o seu traseiro, havia atitude (risos). Eu não queria ficar perto dele.

- Então você ficou em “Chicago” até que idade?

- Nós provavelmente nos mudamos para a costa oeste quando eu tinha 8 ou 9 anos.

- Não, eu quis dizer mais tarde.

- Ah, mais tarde. Bem, eu não estava apto para me graduar. Meus país se separaram e eu estava trabalhando. Eu morava com dois caras, tentava sobreviver, tocando em bandas e o que aparecesse, e depois me mudei de volta para “Chicago” em 82 ou 83. Foi quando eu realmente comecei a ver bandas, pois estando na cidade eu tinha mais acesso á elas. Eu ainda não tinha visto o “X”, até que veio o “More Fun in the World”. Eu tinha algumas identidades falsas, o que era uma grande coisa pois com elas eu passei ater 3 anos a mais, o que permitiu que eu entrasse nesses lugares. Isto provavelmente foi a coisa mais valiosa durante aqueles 3 anos.

- E quais outras bandas você viu ?

- Bem, eu parecia gostar de tudo. De “Firehouse” á “Peppers”...

- Você viu “Black Flag” ou “Fear” ? Ou alguma dessas ?

- Não, eu não ví estas bandas. Eu acho que se tivesse crescido no centro de “San Diego”, eu teria acesso a estas bandas. EU viví minha vida com a bíblia do “the Who”. Que foi uma espécie de foco principal. Eu ouvia aqueles albúns repedidamente, todos eles. Eu acho que os ví finalmente em 1980, e isso mudou a minha vida... Eu nunca tinha tido acesso a bandas como “Fear” ou “Black Flag”. Eu estava conversando uma vez sobre isso com Thurston Moore [do Sonic Youth]. Ele achava que eu estava na idade perfeita para ser um “punk - skatista”, e eu era como um, bem, eu usava uma gravata cortada “at Longs Drugs” (risos), trabalhando 30 horas por semana, indo pra casa e ouvindo “The Who”. Eu tinha minha jaqueta estilo exército e meu skate, mas este era meu transporte. Eu estava mais por dentro de “Springsteen” e contar histórias de coisas. A coisa agressiva do “punk” era algo latente pra mim.

- Eu ví um documentário sobre isso na noite passada, por isso estou te perguntando sobre isso. Ele se chamava “American Hardcore”. É um novo documentário sobre todas essas bandas que estavam em evidência naquela época, e vendo isto, eu percebí que perdí muitas delas também. Eu estava em “Los Angeles” na quela época, então eu pude ver “X”, "Fear“ e...

- “The Germs” ?

- “The Germs”. EU acho que ví também naquela oportunidade “Suicidal Tendecies”. Eu ví “Fear”, “Black Flag” e “Jello Biafra”. Eu percebí na noite passada que ví uma penca de outras, mas perdí o “Bad Brains”. Ouvindo a música delas na noite passada, eu ví como esses caras eram bons !
Foi um documentário interessante, pois falava sobre o relacionamente entre a música e a política na época. Como era a reação e a estética disso tudo. Todas estas bandas deram o tom para o futuro. Ninguém entendia eles, e as rádios não tocavam nenhum deles, mas este não é o ponto.

- Nossa ! Você mencionou aquelas bandas e parece que se passou uma eternidade desde que eu ví todos.

- Certo.

- Sabe, eu tive sorte o bastante para ver “The Pretenders” e “the Clash” com os membros originais. E é incrível, com o “Jello” em particular, como você pode sobrepor o que eles escreviam com o que está acontecendo agora. Continua se ajustando perfeitamente. Isso nos força a pensar que ou o tempo não mudou o bastante ou nós ficamos parados no tempo.

- Isso. Eles não queriam ouvir isso antes e eles não querem ouvir isso agora. Não há surpresas ai. Mas eu deveria-lhe enviar este documentário, é muito interessante. Você conhece alguns desses garotos quando eles tem 14 ou 15 anos, quando montam suas bandas. É um trabalho incrível. Bem, eu já te disse o que penso do novo álbum, mas te direi novamente: “Eu acho que esse é o melhor álbum que vocês fizeram !”. Eu o ouví na noite passada de novo e é realmente incrível ! Eu acho que deveria te perguntar sobre o gênesis de tudo, e quanto tempo vocês passaram trabalhando nele. Quais são as idéias e a estética por trás dele? Como você o sente...?

- Depois de tanto tempo escrevendo as músicas, eu estava partindo para o mais agressivo, que no momento, parece acender a atmosfera dos Estados Unidos, e era como eu em sentia. As letras eram na maioria das vezes uma espécia de “observatório” e eu acho que foi uma forma saudável de aproximar isso, pois neste momento você não quer adicionar poluição sonora só por ódio ou afronta moral. Por outro lado, eu penso que seria completamente superflúo adicionar qualquer tipod e arte para entretenimento; ou algo que fasilitasse viver em mais contradição.

- Certo.

- Se parecendo com um observatório, acabou sendo uma zona neutra. E para muitas canções – havia 6 ou 7 versões para cada uma – houve uma mutação de uma para a outra. E isso se manteve o tempo todo. No final, nós escrevemos 80 canções para tirarmos 13. isso tinha que terminar, tinha que acabar, tinha que parar... Eu não sei se você encontra isso quando escreve esse tipo de coisa, elas absorvem um valioso espaço no seu cérebro e fica sempre lá, martelando a mente, esse tique-taque sobre a inspiração das palavras. Geralmente um álbum nos consome 3 meses mais ou menos, então você sabe que é parte do processo. Mas quando continua por 14 meses, ai já começa a ser um convite para a insanidade.

- Claro, pois quando você começa o segundo ou o terceiro jugamento, ou talvez fique analisando algo que não precisa ser analisado. Para mim, a melhor coisa quando eu escrevo um “script” é ouvi-lo para depois muda-lo. Ultimamente, como uma canção, até que se termine e ouça, não se sabe o que é. Estou certo ?

- Claro. A forma que eu faço isso, com fita cassete e máquina de escrever, eu gravo e depois escuto. EU fumo um maço de cigarros, ouço 50 vezes e recomeço. Isso podia ser escrito 7 vezes, mas quando você segue uma linha, “É isso, este é o caminho”; e depois de trabalhar naquela canção por dois meses, surge de repente uma linha que me possibilita escreve-la por completo. Utilizando apenas uma linha, um novo caminho, eu posso escrever uma canção em 8 minutos.

- Certo. Mas as vezes elas apenas surgem. Elas não levam meses, ou levam ?

- Houve duas, apenas uma ou duas, que surgiram. E para a minha sorte, estavam no gravador cassete, o que fez ele se tornar meu melhor e minha mesa de som, pois quando surgia alguma coisa, eu tinha de coloca-loa em algo real, e rapidamente. Foi interessante porque terminamos a 2 meses atrás e eu tive a chance de tirar uma semana de folga, e eu pensei: “Bem, esta é a primeira vez que eu não tenho que levar minha pasta com meu gravador. Depois pensei:’Isso já fz parte de mim de qualquer forma, pois trabalhamos juntos por 1 ano e meio, já era como minha namorada, então deveríamos tirar férias juntos’”(Tim Robbins rí). Quando eu escrevo algumas canções... há algum tipo de lugar onde vive a arte ou sua criação, e esse é algum lugar entre a realidade e o espaço. As vezes leva algum tempo para chegar lá e fazer o trabalho. É uma questão de encontrar o lugar certo para criar.
Eu percebo que sempre que misturamos as gravações, estamos nesse lugar. È como o lugar que você se acostumou a visitar quando garoto usando fones de ouvido, no escuro, com os olhos fechados.É um tipo de foco que, das duas uma: ou está a alguns metros da sua cabeça ou a milhões de quilômetros de distância, ou ainda em um meio termo. E uma vez nesse lugar, nós fazemos com que as pessoas, com que as pessoas ouçam isso, nós colocamos isso junto nas mentes delas. Não é todo mundo que ouve música desta forma, as pessoas desta geração ouvem os discos hoje em dia colocando as canções para tocarem no computador. Nós continuamos fazendo discos para quem escuta dessa forma, olhos fechdos, naquele espaço.

- Certo.

- Há muito o que perguntar realmente, mas se as pessoas podem ouvir dessa forma, afinal foi para isso que foi criado !

- Bem, isso é tipo “o outro lado do avanço técnológico” dos cds e computadores. Isso torna possível adiantar ou pular uma faixa se você não gostou dos dois primeiros versos. Nós estamos nessa técnologia que é tão rápida eimediata, mas ao mesmo tempo isso tira a alegria de colocar a agulha sobre a ranhura e escutar a um lado de um disco. Sabe, quando você ouve um disco qualquer todo e ele realmente não faz você senti-lo como um álbum, e sim como uma “coleção de canções”, não como um álbum. Entende o que quero dizer ? Eu tenho o “Tumbleweed Connection” [de Elton John]. Eu escutei duas músicas recentemente e me esquecí de como era o resto do álbum. Então eu o escutei do começo ao fim e conceitualmente, estéticamente é um único trabalho. É como uma história, como um sentimento. Eu toquei nisso porque eu realmente não o escutei como um álbum desde a primeira vez que o ouví, quando foi lançado em 1970.

- E um.

- 71. Uma coisa assim. Eu ouço “Burn Down The Mission”, ou uma outra canção, e vejo que me esquecí de como ela me afetou quando eu a escutei pela primeira vez, como pedaço de uma música, canção após canção. E ainda há a pausa na metade. Sabe, aquela parada na metade em que você decide – com o fim do lado A você tem que decidir se irá para o lado B – quer sim quer não, se vai virar o lado.

- Isso mesmo. É como um intervalo num show.

- Exato. E depois, o lado B tem seu sentimento próprio. E era legal quando você dizia: “Eu quero ouvir o lado A de ‘Tumbleweed Connection’, e depois eu quero ouvir o lado A de outro disco”, e depois de um tempo você empilhou 3 discos sobre o prato[do toca-discos]...

- Isso é verdade (risos).

- Então depois você vira eles e passa a ter o lado B de 3 álbuns diferentes. Eu perdí isso. Eu comprei recentemente um toca-discos – eu sempre quis um – onde você pode empilha-los e ir ouvindo um por um.

- Sim.

- Mas isso é tão frágil, tão sensível, tá me deixando louco. Eu tenho que ter alguém que saiba como recalibra-lo, para que ele possa funcionar melhor.

- Eu me lembro também de quando o segundo disco ficava lento e levava um segundo para tirar. Sabe, até chegar ao último disco (risos). Eu me habituei a lotar o toca-discos. Eu nunca me esqueço pois ficava olhando a pilha de 7 ou 8 discos. E toda vez ficavam lentos. Sabe, era como um “jukebox”.

- Então vocês estão parando com o vínil ?

- Absolutamente.

- Bom.

- Por alguma razão o vínil está custando hoje, sabe, 30 dólares.

- Exatamente, 30 pratas...

- Eu era muito jovem quando eu comprei “Tumbleweed Connection”, mas “Captain Fantastic” foi o primeiro do Elton John que eu comprei. Naquela época eu me acostumei a escolher os discos por terem ou não capa dupla [capa que se pode abrir como um livro, assim como o Vitalogy], pois eu sabia que havia mais ilustrações e “Captain Fantastic”...

- Ohhh... com certeza !

- ... tinha algumas coisas. Nem parecia que era de capa dupla, não era bom. Parecia algo de liquidação (risos).

- Bem, a arte é outra coisa nos álbuns. Elas podem ser uma obra de arte, A capa dupla pode ser uma concepção verdadeira da coisa, onde você abre e diz: “Oh meu Deus ! Olha isso !”. As vezes isso pode ser legal, e também uma conexão. Realmente há muito o que se pensar sobre isso. Agoara com os cds, eu tenho um monte de estojos de cd vazios e eu não tenho idéia de onde os cds estão (risos). Eu nunca na minha vida perdí um LP. È impossivel perder um LP. Você pode quebrá-los, e eles quebram fantasticamente quando você realmente os odeia, sabe, jogue-os contra a parede e eles se partem em pedaços. Esta é outra emoção que foi perdida com o cd, você realmente não tem uma demonstração dramática de como o odia-lo (risos). Até as fitas cassetes, você podia puxar milhas e milhas da bobina. Eu me lembro de estar indo de carro para a faculdade com Frank, meu amigo Frank, e por alguma razão estava tocando “Bread”, era uma fita com 8 faixas. Eu me lembro que o frank pegou rapidamente a fita , a quebrou e a jogou pela janela ! Ele ainda disse: “Eu nunca mais quero ouvir esta merda novamente !” (risos). Nós nos acostumamos a quebra-las. Nós faziamos isso o tempo todo – sabe, pois era 1977 e estavamos dentro do “punk-rock” – havia muita música assim, e nós tinhamos de quebra-las.

- Os discos eram feitos para serem quebrados. Pra isso foram feitos.

- Isso é verdade. Eu nunca pensei sobre isso. Mas, eu não estou encorajando a destruição de arte, eu só estou dizendo que, por alguma razão há álbuns como os do Leo Sayer, que não há razão para mandarem para o espaço (risos)...

- É muito difícil criar uma arte de capa para um cd que possa competir com a de um LP, Nós tentamos muito, sabe, o tamanho importa. É muito difícil fazer isso com o mesmo romantismo. São épocas diferentes.

- A outra coisa é a qualidade do som. No “Thanksgiving” desse ano nós jantamos com alguns amigos e num certo momento estávamos em frente á um toca-discos já por uma hora e meia, só ouvindo discos dos “Beatles” e daquela época, como “Johnny Cash´s at Folson Prison”. Nós estávamos apreciando a distribuição do stéreo, que não parecia em nada com o que tínhamos ouvido em cd. Nós estávamos feitos pedras, atentos, só apreciando aquelas músicas. Quantas vezes você faz isso? Sabe, você só senta e diz: “Escute isso, escute a forma com que o som sai da caixa esquerda, e da caixa direita”. Você está numa distância igual das caixas ouvindo o que está acontecendo. Eu acho que o cd não tem uma distribuição correta.

- Sem mecionar a diferença entre altos e baixos, e a excitação. Eu estava ouvindo “Klaus Nomi”, que tem uma voz incrivelmente alta. Eu tinha alguns cds, mas havia dois álbuns que eu não encontro. Eu tinha uns LPs que me foram enviados da França, e a experiência era completamente diferente ouvindo-os. No cd sua voz não tinha a mesma qualidade. O fim do tom alto foi prejudicado pelo som sustenido criado pelo formato digital. Eu acho que isso o pertubaria se ele se ouvisse em cd.

- E ainda havia todo aquele trabalho com as fitas. Você lembra...? Levava um tempão. Você tinha que acelerar o álbum, colocar a fita pra rodar, testar para ver se a fita estava na música certa, se estava na canção anterior...

- Pausar e gravar, depois colocar a agulha...

- Sim, colocar a agulha e ter certeza de que não ia pular...levava tempo. Agora, você pode fazer um “mix” em um cd em 33 segundos (risos). Você faz isso com seu “Ipod” e “Itunes”

- Ting, ting, ting, ting, ting - e isso se tornou fácil.

- Agora, uma vez que sei que isso tende a acontecer tão rápido, quando algo acontece leva o processo de 5 para 10 minutos, eu estou puto da vida (risos).

- Eu tive a droga de uma “Luddite” [pratica na Inglaterra do século 19 que se opunha a
revolução industrial e destruia máquinas estavam acabando com o seu meio de sustento dos trabalhadores] em todas as minhas edições. Eu dirigí 3 dos meus 4 filmes apenas com cortes. Eu tenho uma teoria sobre escolhas: “Se você pode escolher entre 20 e 4 escolhas no tempo que lhe resta, não é melhor fazer 4, tendo tendo você apenas para pensar sobre estas 4 ?” Esta é minha teoria sobre isso... você não pegou essa analogia ,pegou ?

- Em algum momento a fita acaba, e tudo se volta para o mundo digital.

- Mas você fez em fita ?

- Claro. Os discos dos computadores e as outras coisas criam mais opções, mas uma vez que decidimos sobre isso, isso se tornou algo real.

- Eu acho que eu tenho que admitir que tenho que editar o próximo filme no computador, pois há momentos de ser correto, e depois alguns de ser idiota (risos). Como quando você está num cavalo e é ultrapassado por uma carroça...

- Bem, isso se tornou arriscado, realmente.

- Exatamente.

- Pelo cavalo.

- (risos). Vejamos... oh sim, “World Wide Suicide”, “Life Wasted”, “Marker in the Sand”, e “Parachutes”… o excêntrico álbum é cheio de grandes canções. Mas primeiro de tudo, “WWS”, eu seu que você não gosta muito dela, mas ela é um “hit”. Só estou dizendo o que saiu na mídia. Agora, todas as canções

– você falou sobre não querer partcipar de um canto de negatividade relativa, pois o mundo está se endireitando - eu não acho que elas são negativas. Mas há um ódio nelas. Eu acho que isso é muito diferente de negatividade, e isso é uma coisa positiva. Como você disse, elas são observações e reflexões do mundo ao seu redor. Mas todas elas tem, bem , muitas delas tem um envolvimento real com o que está acontecendo. Não de uma forma diferente, não com referências específicas à políticos, ou por nomes, mas certamente elas estão visivelmente sonectadas com o que está acontecendo e eu acho que muita gente entenderá isso e corresponderá. Isso é foda ! Quando digo isto, é por observar onde estamos com a razão nesse mundo, nossa posição no mundo, nossa responsabilidade com a sociedade, e como encaramos isso, Como encaramos a violência, a confusão, o patriotismo, este ódio... Eu acho que tudo se refletiu nessas canções. Eu caho que é porque eu sinto como se ele fosse um álbum. É algo que tem começo, meio e um fim. E do começo ao fim não há nada de anarquismo, que eu ache que é naõ é realmente importante. E há um tom de esperança, as coisas sempre ferradas, há um otimisdo nisso. A provocação é maior do que um otimismo. Isso é foda ! Mas não estou tentando tomar partido, estou tendo uma visão.

- Eu acho que era parte de uma jornada. Não foi proposital a ordem das canções, só aconteceu dessa maneira quando começamos a conversar sobreo mundo a nosso redor e a atmosfera que vivemos. De alguma forma, há muito sobre viver nos Estados Unidos nos dias de hoje. Só por viver aqui, você vai pra casa com resíduos de guerra. A energia mental de um país em guerra. Isso começa a se comportar como, como: “O que há sobre minha pele ? Eu posso lavar isso ? Isso está nos meus pulmões ?”. E no fim do álbum há algo mais intimista, fazendo uma espécie de inventário sobre tudo. No começo é apenas aparência, e no final, você súbitamente está lidando com algo interno e eu acho que não é só simbólico, mas é oq eu realmente acontece na vida de um cidadão dos Estados Unidos. Os jornais nocauteiam você e sua família. Depois das coisas como a última eleição, você passa a querer tirar algo de dentro para começar a agir, pois sente que não importa quais tentativas são tomadas para influenciar alguma mudança positiva, expandindo um tipod e “pensamento progressivo” e tentando educar e ativar os outros, no fim... o resultado frustrante da última eleição. Depois disso percebí que era hora de olhar para dentro e ver o que se poderia fazer consigo mesmo e à aqueles ao seu redor. Onde você pode mudar algo.

- E foi uma frustração incrível ter isso gravado na nossa cabeça por fontes diversas e legítimas; que as eleições sempre estiveram perdidas, ela não estava perdida ! A idéia de que agora se toléra nos Estados Unidos roubo nas eleições... John Conyers, um congressista do Senado dos Estados unidos, escreveu um livro sobre como foi o roubo em Ohio, um livro baseado nas suas descobertas e investigações; e não houve nada sobre isso nos jornais dos Estados Unidos. Você começa a perceber que não é apenas por não haver confissão de algo, mas por haver negligência proposital. E quando você está vivendo em um mundo como este, você percebe que não pode confiar nos jornais para compreender corretamente a realidade, você tem que aguentar e segurar o que sabe da verdade...

- E fazer sozinho uma espécie de vigilância sobre os direitos.

- Claro, e não aceitar que o que a maioria legitimou está correto. Você tem seu próprio caminho e acho que algo está fazendo com que as pessoas percebam cada vez mais. Isto está começando a se refletir nas pesquisas que foram feitas. Eu quero dizer que temos uma situação em que há um presidente que 65% das pessoas não gostam, e um vice-presidente que 85% das pessoas rejeitam. Ou seja, ele tem aprovação de 12% (risos).
Eu venho com isso na minha cabeça, os Estados Unidos de agora e a antiga União Soviéica. Sabe, tudo vem dos “Gulags” [campos de concentração soviéticos, semelhantes aos nazistas – viva o socialismo....!!!] para as pessoas apoiarem sem julgamento uma mídia patrocinada pelo Estado que efetivamente vende uma guerra baseada em mentiras (risos). Me desculpe. Eu não sei. O que mais pode acontecer para encobrir isso aqui ? É estranho falar algo assim para você...

- É muito controlado ! (Tim Robbins rí). Eu quero dizer, comparado com o habitual, nós não falamos nada apimentado...

- Oh, eu penso que falamos.

- Nós chegamos em algo muito baixo e sujo.

- Bem, esse é o Canadá. Eles podem controlar isso.

- Sabe, foi interessante excursionar no Canadá [nessa última turnê] porque não demos apenas um pulo na fronteira como geralmente fazemos quando tocamos ai. Nós olhamos e resolvemos fazer uma turnê linear por ai, e depois de duas semanas eu percebi uma enorme diferença em estar em um país que não está em guerra Nós nos acostumamos com isso, nos acostumamos como um manco se acostuma a mancar, nos acostumamos com estas notícias horríveis chegando todo o dia. Nós só pensávamos em viver nossas vidas. Foi tão interessante a diferença. O ar parecia diferente. A forma das pessoas se comunicarem, a forma com que elas reagiam uma com a outra. Elas tinham problema, evidentemente, mas este ou aquele político, parecia liberdade. Parecia com a liberdade que esquecemos que tínhamos.

- Exatamente. E ter a possibilidade de dizer qualquer coisa que viesse a mente. E este realmente foi a chave da nossa conversa aqui. Isso não é liberdade? Sempre quando as pessoas dizem coisas que você não gosta deve respeitar, elas estão em seus direitos. E nós estamos agora com uma idéia pré-fabricada e pré-empacotada de democracia e liberdade, e isso é assustador. Mas eu admiro que nos choque a idéia de que temos uma voz e responsabilidade em usar essa voz e eleger um governo que supostamente seja controlado pelo povo.

- Bem, isso é interessante também. Olhe nossa história recente – eu tentei hesitante criar uma saída hipotética de uma situação ou evento – mas o 11 de Setembro tem sido como um botão vermelho para amedrontar. Isso tem sido usado como uma ferramenta para controlar o país, com isso eles podem tirar algum intenso plano neo-conservador que estava engatilhado por décadas. E também, se você voltar e pensar naquelas 2 ou 3 mil vidas perdidas, e depois pensar na soma de boa vontade que tivemos... quando você diz: “O que poderia ocasionar uma mudança ?”, havia uma oportunidade ai, e aquelas vidas, se tivessem sido vistas como uma espécie de, Deus me livre, sacrifício, o mundo estaria do nosso lado. E o que nossos líderes fizeram com aquela energia...? Eu me lembro de você falando como nós não tínhamos simpatia e compaixão das pessoas ao redor do globo, e como recebemos conforto deles, mas isso nos ligou aos nossos vizinhos. Não foi apenas uma oportunidade perdida, foi uma oportunidade que eles usaram para algo mais. Três mil pessoas. Suas vidas se perderam e isso acabou envolvendo uma situação onde 100 mil vidas iraquianas foram perdidas. E você sabe quantas baixas tiveram os Estados Unidos, 25 mil feridos e 2.500 mortos. Todos se lembram de como foi o começo do medo, mas não se lembram que junto disso veio algo inacreditável, não apenas para nossos compatriotas, mas para todo o mundo.

- Bem, estamos numa merda maior agora. E a indicação é que há algo ainda mais profundo, eu acho que nós podemos começar a imaginar com o que a mídia vem passando. E o fato é que há gente maior que apóia essa iniciativa, e o fato é que agora eles tem que voltar atrás e admitir algo, isso é um indicador de que há algo pior. Eu acho que a verdade é muito pior do que eles começaram a admitir. E onde vai parar, só o tempo dirá. Mas o fundo do posso é que há um tremendo montante de pessoas em Washington que estão tentando desesperadamente apoiar tudo o que for de esquerda na República. E aquelas pessoas não são Democratas. São pessoas da CIA, FBI, diplomatas vitalícios, pessoas com cargos vitalícios no Departamento de Estado, que é o quer parece ser verdade, eles estão assoprando o apito o quanto podem, desviando documentos o quanto podem, eles estão desesperadamente tentando salvar a República. Por que eles estão fazendo isso? Porque estamos em um risco real agora. É o que acontece com o poder sem freios que está permitindo ao presidente grampear os telefones as pessoas, o presidente está dizendo que está acima da lei e da Constituição, e o Senado é relutante em persegui-lo ou mesmo censurá-lo por não respeitar as leis. Ai você compara à essa situação com o que o Clinton fez, mentindo sobre um “boquete”, não há nem comparação. Uma ameaça um casamento, a outra o futuro da República. Eu estou com medo do que possa acontecer se o próximo passo for dado, históricamente, foi algo como uma lei marcial ou algo assim. E eu não acho que é paranóia demais, pois acho que estamos no caminho de acontecer um evento muito horrível. Mas você sabe o que? Fodam-se eles, fodam-se suas idéias e seus planos, pois a única forma deles fazerem isso é se nós dermos à eles o poder para fazerem isso. E a única forma de acontecer é forçando as pessoas a darem pontapés e gritarem. Então, eu digo que eles são inconseqüentes e porcos, eles não tem idéia do que é liberdade e democracia, então vai se fuder !!!

- Sabe, eles[revista HoBO] me procuraram para eu questionar você sobre certas coisas que eu não perguntei à você. Eu só queria te dizer isso (risos)... Estou brincando.

- Isso tudo, “Onde foi que eu aumentei as coisas...”, foi algum deles?

- Não, não, não, foi eu mesmo que imaginei...

- Ok, pois eu achei que estava aborrecido. Me desculpe.

- Claro, eu acho que quem quer que esteja transcrevendo isso deveria fazer isso mais tarde. Eu acho que a primeira parte foi legal, sobre as “trilobitas”...

- Sim, isso foi legal.

- E depois eu acho que se adiantasse alguns anos... mas não existia “Ticketmaster”, nem vídeo clipes ou qualquer outra coisa. Bem, que se foda, nos fizemos o bastante. Quem estiver transcrevendo [ou traduzindo...], deve estar muito exausto agora.

- Claro, mas ele gosta “Eu me curvo à eles, pois pensam em todas as coisas, eles resolvem os problemas do mundo, e eu estou fazendo isso acabar”.

- Ela ou ele estava realmente aborrecido(a) com toda a sessão política. Agora ela ou ele está esperando que se diga algo alegre, divertido, ou se fale sobre sexo, algo do gênero. Clube de “Strippers”, comportamento depravado, tendências alcoólicas, desmaios no chão, nada que tenhamos falado sobre pois nunca aconteceu. Bem, ao menos, nos últimos dois dias (risos). De qualquer forma, há duas coisas que eu que falar com você, mas não pelo telefone.

- Certo, eu retornarei a ligação à você.

- Legal.

- Ok Tim. Tchau Canadá.


Créditos: Henrique (Annie) - Restless Souls

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Corduroy18 RIP :edpick:

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