Bomba artesanal contra prédio de portugueses
Inglaterra Polícia classifica como "ataque racista"explosão de engenho feito com fogo-de-artifício Portugueses escaparam ilesos
Polícia montou vigilância ao prédio e já deteve dois suspeitos do atentado
Correspondente em Londres
Rita Jordão
Um prédio onde residem 13 portugueses foi alvo de um ataque racista por parte de jovens ingleses. O incidente ocurreu em Norfolk, no nordeste de Inglaterra na passada quinta-feira quando um engenho explosivo rebentou dentro de um prédio de dois andares habitado maioritariamente por imigrantes portugueses. A Polícia está a investigar o prédio e classificou o incidente como um "ataque racista".
Uma das habitantes portuguesas do prédio contou ao JN o que aconteceu "A minha filha e o meu genro estavam em casa e ouviram uma explosão. No início ainda pensaram ser o quadro de electricidade mas, quando sairam ao corredor, viram um andarilho de criança a arder. O prédio foi imediatamente evacuado e chamou-se a polícia", contou Maria Marramaque, uma funcionária fabril de 40 anos que reside em Norfolk há cerca de 10 meses.
"A explosão foi mesmo à porta do meu apartamento, podia ter sido uma tragédia", acrescentou. Mais tarde a polícia confirmou que se tratava de um engenho explosivo artesanal construído com fogo de artifício, pregos e parafusos que foi colocado no corredor de acesso aos apartamentos, no primeiro andar do prédio. O incidente não causou vítimas.
Os dezoito habitantes - que incluem uma inglesa, dois brasileiros e quatro polacos - foram transportados para uma cidade vizinha onde estão desde quinta-feira aos cuidados dos serviços sociais da autarquia local.
Dois suspeitos foram detidos pela polícia inglesa poucas horas após o incidente e outros dois foram detidos durante o dia de ontem. Um porta-voz da polícia disse que os quatro estão a ser interrogados. Um dos habitantes do prédio descreveu os suspeitos como "rapazes jovens de nacionalidade inglesa".
A polícia local está a tratar o caso como um incidente racista mas, entre os portugueses, a palavra racismo não é bem-vinda. "Já coloquei essa hipótese mas prefiro pensar que se trata apenas de uma brincadeira de mau gosto por parte de alguns jovens. Eu nunca tive qualquer problema de racismo, dou-me muito bem com todos os ingleses que conheço", conta. No entanto admite que muitos portugueses se isolam e não se adaptam à comunidade inglesa.
Tal como outras regiões de Inglaterra, Norfolk tem visto a comunidade portuguesa crescer de dia para dia nos últimos anos. Problemas como o desemprego, idioma ou integração social têm vindo a preocupar as autoridades locais e já criaram, no passado, conflitos entre ingleses e portugueses.
Jorge Bruegas, proprietário de uma agência de emprego na região, não acredita que exista um sentimento de racismo contra os portugueses mas admite que existe um problema. "Os ingleses pensam que nós vimos aqui tirar trabalho, mas nós vimos para cá fazer aquilo que eles não querem fazer e somos bons trabalhadores. Isto cria uma certa tensão entre as duas comunidades".
O prédio, que ainda está a ser investigado pela polícia, não sofreu quaisquer danos mas continuará encerrado para investigação por tempo indefinido. Os habitantes foram ontem recolocados num hotel na área.
Desconfiança, agressividade e racismo já não são de agora
O crescente número de imigrantes portugueses em pequenas cidades ingleses inglesas tem vindo a gerar, em vários locais, um sentimento de desconfiança e, por vezes, de agressividade. Durante os últimos dois anos foram vários os casos de agressões, apedrejamentos e conflitos entre portugueses e ingleses particularmente em Boston, cidade vizinha de Norfolk. Mas o próprio prédio onde rebentou o engenho explosivo na passada quinta-feira também já foi vítima de incidentes racistas no passado. Os portugueses que residem na área garantem que se trata de grupos de jovens que, alimentados por um sentimento de racismo contra os portugueses, partem vidros de estabelecimentos e pintam mensagens racistas nas paredes das casas ou lojas de portugueses. Ainda assim, o incidente de quinta-feira não tem precdentes, uma vez que foi a primeira vez que foram utilizados explosivos contra portugueses na zona.


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24.11.1996
18.06.2007




